A primeira semana de setembro de 2026 já entrou para o calendário do marketing brasileiro com três campanhas que, cada uma à sua maneira, redefinem padrões de execução e ambição. Brahma, Eudora e Itaú ocuparam as manchetes com ações que vão do branding pré-Copa à operação de creators em escala industrial e à curadoria de experiência de marca em um dos maiores festivais de música do mundo. Mais do que o hype de lançamento, o que essas campanhas revelam sobre o momento do mercado publicitário brasileiro? É o que este artigo analisa, com olhar estratégico para quem investe em marketing e precisa extrair lições aplicáveis ao próprio negócio.
Antes de mergulharmos em cada campanha, vale contextualizar o cenário. Setembro de 2026 marca a reta final de preparação para a Copa do Mundo, o aquecimento do mercado de beleza para o último trimestre (historicamente o mais forte do setor) e a temporada de grandes festivais no Brasil, com Rock in Rio e The Town concentrando investimentos milionários em patrocínio e experiência. É nesse caldo cultural que as três marcas escolheram se posicionar, e o resultado é um panorama riquíssimo sobre para onde caminha a comunicação das grandes empresas no país.
Brahma e o renascimento da fé no hexa
Seis meses antes da Copa do Mundo de 2026, a Brahma fez uma aposta ousada: em vez de simplesmente associar a marca à celebração do futebol, ela decidiu reacender a chama da torcida brasileira. A campanha "Tá Liberado Acreditar" é um curta-metragem ambientado no centro do Rio de Janeiro que reúne duas figuras de peso: o técnico Carlo Ancelotti, embaixador da marca, e o ex-jogador Ronaldo Nazário. Criada pela Africa Creative , a peça não vende cerveja: vende permissão para sonhar.
"O maior acerto da Brahma não foi o Ronaldo, Ancelotti e nem a cerveja grátis, foi perceber que o brasileiro queria acreditar, mas tinha vergonha."
O insight é cirúrgico. Pesquisas de opinião pública vinham mostrando uma torcida brasileira cada vez mais cética em relação ao hexacampeonato, depois de ciclos de eliminações precoces em 2018 e 2022 e uma desconfiança crescente no trabalho da seleção. A Brahma identificou esse vácuo emocional e o ocupou com uma narrativa de redenção coletiva. A escolha de Ancelotti (técnico italiano, multicampeão europeu, que comanda a seleção brasileira) como rosto da campanha é um acerto de casting que transcende o futebol: ele representa competência, serenidade e, acima de tudo, credibilidade para pedir que o brasileiro volte a acreditar. Ronaldo, por sua vez, traz a memória afetiva da última vez que o Brasil foi campeão mundial, em 2002, criando uma ponte emocional entre gerações.
- Narrativa emocional: a campanha aposta no resgate da paixão e da confiança do torcedor, não em atributos funcionais da cerveja. É branding puro, com execução cinematográfica.
- Timing estratégico: lançamento em setembro de 2026, seis meses antes da Copa, cria uma curva de aquecimento que pode ser alimentada com novas ativações até maio de 2027. Um arco de campanha longo, raro em comunicação de bebidas.
- Plataforma de marca: Brahma se posiciona como "torcedora oficial", um território de branding que a marca já ocupa historicamente, mas agora com uma execução contemporânea que dialoga com o ceticismo da torcida em vez de ignorá-lo.
- Africa Creative: a agência, que vem se destacando no mercado brasileiro por campanhas de alto teor narrativo, entrega um curta que funciona mais como conteúdo de entretenimento do que como propaganda tradicional. Um formato cada vez mais necessário para furar o bloqueio de atenção do consumidor.
Do ponto de vista de branding pré-Copa, a campanha acerta ao não tentar vender otimismo vazio. Ela reconhece o ceticismo e o enfrenta com provas concretas (Ancelotti, Ronaldo, a estrutura da seleção) em vez de recorrer a jargões ufanistas. Para marcas que planejam ativações esportivas em 2026, a lição é clara: o consumidor brasileiro está emocionalmente disponível para se engajar com a Copa, mas não aceita discurso pronto. É preciso um insight genuíno, ancorado em figuras que emprestem credibilidade à narrativa. A Brahma entendeu que, neste ciclo, o papel da marca não era gritar "vai hexa", mas sim dar ao torcedor uma razão para acreditar de novo.
Eudora Siàge e a máquina de creators em escala
Enquanto a Brahma trabalha o afeto coletivo, a Eudora Siàge opera em outra dimensão: a da escala industrial de marketing de influência. O lançamento da linha capilar Siàge Ultra Bond Reset mobilizou 25 mil creators e distribuiu 100 mil produtos para experimentação nos 27 estados brasileiros. A operação, assinada pela BR Media Group em parceria com a plataforma MIS, é o maior UGC (conteúdo gerado por usuário) já executado pelo Grupo Boticário, e possivelmente um dos maiores da América Latina.
Os números impressionam e merecem ser analisados em detalhe:
Métrica: Creators mobilizados
Resultado: 25 mil
Significado: Base pulverizada em vez de poucos megainfluenciadores
Métrica: Produtos distribuídos
Resultado: 100 mil
Significado: Investimento alto em amostragem com retorno em earned media
Métrica: Estados alcançados
Resultado: 27
Significado: Capilaridade nacional real, incluindo regiões remotas
Métrica: Tempo para atingir a meta de adesões
Resultado: 10 dias
Significado: Alta demanda e engajamento da rede de creators
Métrica: Conteúdos publicados nas primeiras 12h
Resultado: 4 mil
Significado: Volume de prova social gerado em meio período
Métrica: Itens vendidos por segundo no 1º dia
Resultado: 13,8
Significado: Conversão direta em vendas, superando Nutri Diamond
O que isso significa: a Eudora não tratou creators como canais de mídia, mas como parte integrante do próprio produto. Cada creator que testou o Ultra Bond Reset e publicou seu resultado virou uma demonstração ao vivo de performance, muito mais poderosa do que um anúncio produzido pela agência, porque carrega a credibilidade de quem está usando o produto de forma espontânea.
A estrutura da operação é um estudo de caso em marketing de influência 4.0. Em vez de selecionar um punhado de megainfluenciadores para postar conteúdos polidos e roteirizados, a marca optou por uma base ampla de creators de diferentes portes, regiões e perfis, gerando autenticidade e capilaridade. A plataforma MIS fez a ponte tecnológica entre a marca e os creators, gerenciando a distribuição dos 100 mil produtos, o rastreamento das publicações e a mensuração dos resultados em tempo real. A BR Media Group, como holding especializada em creator economy, coordenou a estratégia e a curadoria da rede.
O resultado comercial apareceu nos números de venda: 13,8 itens por segundo no primeiro dia, superando o desempenho de Nutri Diamond, que até então era o maior lançamento da história de Siàge. A prova social em escala não apenas gerou conteúdo orgânico: ela converteu em ticket médio real, provando que o modelo de UGC massivo pode ser não apenas uma estratégia de branding, mas um canal de vendas de alto desempenho.
Para empresas que investem em marketing, a lição da Eudora é particularmente relevante em um momento em que o custo do tráfego pago sobe continuamente e a fragmentação da atenção do consumidor torna cada vez mais difícil alcançar relevância com mídia tradicional. A distribuição de amostras para uma rede de creators bem coordenada pode gerar um ROI de mídia conquistada (earned media) que supera em muito o investimento inicial em produtos e logística. A chave está na qualidade da curadoria da rede e na logística de distribuição, não apenas no número de creators, mas no engajamento genuíno que cada um deles é capaz de gerar dentro da sua comunidade.
Itaú e a curadoria musical como experiência de marca
A terceira grande campanha da semana traz uma abordagem diametralmente oposta à da Eudora: em vez de escala, exclusividade. O Itaú criou o Listening Club , espaço localizado na área VIP do Rock in Rio 2026 com capacidade para 60 pessoas por sessão e oito sessões diárias. A experiência é destinada a clientes Itaú Personnalité e Itaú Private Bank, os segmentos de alta renda do banco, e celebra 25 anos de parceria ininterrupta com o festival, uma das mais longas e consistentes da história do patrocínio musical brasileiro.
O espaço não tem nada de convencional, especialmente para um estande de banco em festival. DJs criam sets inspirados no contexto temático de cada dia do festival, tocando exclusivamente em vinil, enquanto uma carta de drinks exclusiva (assinada pelo mixólogo Tai Barbin) oferece quatro drinks e dois mocktails desenvolvidos especialmente para o público do Listening Club. O conceito é de escuta atenta e imersiva: o ambiente conta com acústica tratada e um design que convida à descoberta de camadas sonoras, em contraste deliberado com a energia dos grandes palcos. É um refúgio de sofisticação dentro da Cidade do Rock.
"Ouvir as pessoas é o segredo para evoluir a jornada de forma relevante e próxima." (Itaú, sobre o conceito do Listening Club)
Além do Listening Club, o Itaú mantém o Pavilhão Itaú, com mais de 1.000 m² e três andares (um dos maiores espaços de experiência do festival) e o Mirante Itaú Uniclass, voltado para o público jovem universitário. A estratégia é de presença omnichannel no festival: enquanto o Pavilhão é o grande hub de experiência para o público geral, com ativações interativas e shows, o Listening Club funciona como um ponto de relacionamento de alto valor para o segmento premium, onde o banco pode aprofundar o relacionamento com seus clientes de maior ticket em um ambiente controlado e memorável.
- Exclusividade segmentada: a experiência é restrita a clientes Personnalité e Private Bank, reforçando o status e a diferenciação do atendimento que o banco oferece nesses segmentos.
- Curadoria como marca: o Listening Club não é um lounge comum, mas uma experiência de áudio curada, com identidade própria, que associa o Itaú à sofisticação musical e à descoberta sensorial.
- Longevidade de parceria: 25 anos de Rock in Rio mostram consistência de patrocínio que pouquíssimas marcas ostentam no Brasil, gerando uma associação automática e positiva entre Itaú e o maior festival de música do país.
- Mixologia de marca: a parceria com Tai Barbin para criar drinks exclusivos adiciona uma camada extra de curadoria e storytelling que transforma o espaço em uma experiência multissensorial.
Para marcas que investem em experiência e patrocínio, o Listening Club exemplifica uma tendência crescente no mercado: a premiumização do patrocínio de eventos. Em vez de apenas estampar a marca em um palco ou distribuir brindes genéricos, o Itaú cria um espaço com curadoria própria, que agrega valor real à experiência do festival e gera um momento de relacionamento de alta qualidade com o cliente de maior ticket. Em um mercado onde a diferença entre produtos financeiros é cada vez menor, a experiência de marca se torna um dos principais fatores de diferenciação competitiva.
O que as três campanhas revelam sobre o branding de 2026
Embora Brahma, Eudora e Itaú atuem em categorias muito diferentes (bebidas, beleza e serviços financeiros), as três campanhas compartilham um denominador estratégico comum: cada uma delas encontrou uma forma de ocupar um espaço emocional ou experiencial que vai muito além da comunicação funcional do produto.
A Brahma poderia ter feito um comercial mostrando uma cerveja gelada com torcedores comemorando. Em vez disso, produziu um curta-metragem que reconhece a dor do torcedor e oferece uma narrativa de redenção. A Eudora poderia ter contratado três atrizes famosas para um comercial de TV. Em vez disso, distribuiu 100 mil produtos para 25 mil pessoas reais testarem e falarem. O Itaú poderia ter montado um estande com balcão de atendimento. Em vez disso, criou uma experiência acústica com curadoria musical e drinks exclusivos para 60 pessoas por vez.
Dimensão: Insight central
Brahma: Torcedor precisa de permissão para acreditar
Eudora Siàge: Consumidora quer ver resultados reais em pessoas reais
Itaú: Cliente premium busca exclusividade e curadoria
Dimensão: Formato
Brahma: Curta-metragem cinematográfico
Eudora Siàge: UGC em escala industrial (25 mil creators)
Itaú: Experiência imersiva presencial (Listening Club)
Dimensão: Escala
Brahma: Nacional, via mídia paga e orgânica
Eudora Siàge: Capilar: 27 estados, 25 mil pontos de contato
Itaú: Exclusiva: 60 pessoas/sessão, segmento premium
Dimensão: Métrica-chave
Brahma: Engajamento emocional e recall de marca
Eudora Siàge: 13,8 itens/s no primeiro dia de vendas
Itaú: Fortalecimento de relacionamento com alta renda
Dimensão: Ativo principal
Brahma: Narrativa e casting (Ancelotti + Ronaldo)
Eudora Siàge: Rede de creators e logística de distribuição
Itaú: Curadoria musical e espaço físico exclusivo
Dimensão: Agência/Parceiro
Brahma: Africa Creative
Eudora Siàge: BR Media Group + plataforma MIS
Itaú: Experiência própria com curadores externos
Um padrão interessante emerge dessa análise comparativa: as três marcas abandonaram a abordagem de comunicação de massa tradicional em favor de modelos mais específicos e sofisticados de conexão com o público. A Brahma aposta em narrativa longa e emocional (um curta, não um comercial de 30 segundos). A Eudora terceiriza a criação de conteúdo para uma rede de 25 mil pessoas, abrindo mão do controle criativo em troca de autenticidade e escala. O Itaú investe em uma experiência presencial para 60 pessoas por vez, privilegiando profundidade sobre alcance.
Nenhuma dessas campanhas poderia ter sido executada da mesma forma há dez anos. A Brahma precisou do timing e da capilaridade das redes sociais para viralizar o curta e gerar conversa orgânica. A Eudora dependeu de uma plataforma de gestão de creators (MIS) e de uma holding especializada em creator economy (BR Media) para coordenar a logística de 100 mil produtos e 25 mil criadores em 27 estados. O Itaú utilizou dados de segmentação bancária para identificar e convidar os clientes certos para o Listening Club, transformando dados em experiência personalizada.
Para empresas que planejam suas campanhas de 2026 e 2027, o recado é direto e relevante: o marketing de interrupção perde espaço aceleradamente para o marketing de conexão. Seja pela emoção compartilhada (Brahma), pela prova social em escala (Eudora) ou pela exclusividade curada (Itaú), a marca que entrega uma experiência ou um sentimento genuíno colhe mais engajamento e retorno do que aquela que apenas interrompe o consumidor para falar de si mesma. Em um cenário de atenção fragmentada e custo de mídia crescente, as campanhas que constroem conexão real (com insight, escala inteligente ou curadoria) são as que realmente marcam a memória do consumidor e geram retorno sustentável para o negócio.
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